Entrevista

Carvalho e Silva

Obra aberta

O arquiteto José Leite de Carvalho e Silva, autor de projetos como os da Igreja São Paulo Apóstolo e da Biblioteca Pública Municipal, em Campinas, diz, na entrevista, que é possível morar bem em espaços reduzidos e defende o que chama de arquitetura humanizada, onde quanto menos paredes existir melhor.

Com a experiência de mais de 50 anos de profissão, o arquiteto José Leite de Carvalho e Silva, 80 anos, diz que morar bem é uma questão de funcionalidade. Em tempos de espaços reduzidos, o autor de projetos marcantes na cidade como a Igreja São Paulo Apóstolo – onde este ano será realizado o casamento de sua filha – e a Biblioteca Pública de Campinas, ensina os macetes para deixar ambientes agradáveis, defendendo obras abertas, nas quais propões a queda das paredes e das divisórias.

Adepto de projetos “humanizados”, com a utilização de materiais essencialmente naturais, como madeiras, pedras rústicas e tijolos à vista, ele afirma que este é o caminho atual para a construção de residências. “O mais importante é o indivíduo se sentir à vontade”, enfatiza. Para isso, ele garante, também, que é muito importante uma integração entre a arquitetura e o paisagismo.

Com grandes obras e belas residências espalhadas por toda a região de Campinas, Carvalho e Silva é conhecido por trabalhos extremamente contemporâneos. Para esta entrevista, o arquiteto recebeu a repórter da Revista do Correio Popular em seu escritório, que fica numa casa predominantemente modernista, no Cambuí. Entre plantas produzidas no computador e fotos de muitos projetos construídos, ele diz que suas obras são resultado de uma linha contemporânea e que seu trabalho não se prende a nada.

Campineiro da gema, Carvalho e Silva acompanhou o crescimento e as mudanças da cidade. Com conhecimento de causa, ele analisa os contrastes sociais e lamenta os efeitos destruidores do progresso sobre as construções do primeiro século de Campinas.

Revista – O que é preciso hoje em dia para morar bem?
Carvalho e Silva – A primeira coisa é a pessoa atingir um grau filosófico de vida em que ele tenha o necessário e o suficiente para ter uma vida agradável. Mas nós costumamos sobrecarregar a nossa existência com preocupações que no fundo não têm interesse nenhum. Por isso eu acho que quem atingiu o alto nível de bem morar foi o japonês tradicional. Porque ele não tem aquele entulho que a gente acaba juntando em casa. Ele tem apenas o que ele precisa para viver bem.

Revista – Então o senhor é adepto da decoração minimalista?
Carvalho e Silva – Sou. Eu prefiro ter uma peça boa que me traga uma satisfação do que ter 50 mais ou menos, que não tenham expressão artística nenhuma.

Revista – Como aliar a qualidade de vida doméstica aos espaços reduzidos dos novos imóveis?
Carvalho e Silva – Essa é uma pesquisa que tenho feito através da minha vida profissional de 42 anos. Eu defendo obras abertas, sem divisões e com poucas paredes. Os ambientes que eu tenho projetado, mesmo os que não são tão reduzidos, partem deste princípio. Em imóveis menores essa solução é bem eficiente, porque sem divisórias definidas você tem a sensação de um espaço mais amplo.

Revista – É mais ou menos a idéia dos lofts nova-iorquinos?
Carvalho e Silva – Não. Minha idéia está mais próxima da arquitetura japonesa. Com divisões como biombos, jardins ou plantas nas salas. E locais como copa, cozinha e área de serviço expressos como uma peça única.

Revista – Qual é sua preocupação inicial em projetos residenciais?
Carvalho e Silva – Em primeiro lugar eu dou muito valor à função. Eu acho que a casa tem que ser funcional. Pode até não ser bonita, mas se for funcional está muito bem enquadrada. Normalmente eu penso na casa localizada no terreno como um todo e separo setores fundamentais da residência: setor social, setor de serviço e setor noturno. Nessas três áreas eu vou jogando os cômodos necessários para criar o todo.

Revista – como o senhor classifica uma casa funcional?
Carvalho e Silva – Como uma casa que atenda às necessidades do bem-estar do indivíduo. Não é o tamanho que resolve. Muitas vezes o tamanho sacrifica.

Revista – Na hora de construir, uma preocupação inicial é quanto ao posicionamento da casa no terreno, em função do sol?
Carvalho e Silva – Existe uma série de fatores que posicionam a casa no terreno. Dependendo do clima, da situação no local em que a casa está sendo construída, a posição dela vai depender de fatores específicos da região. Campinas é um caso patente. Eu não coloco dormitórios, por exemplo, voltados para o leste. Porque nós temos uma corrente de vento sudeste que é um inferno. E por isso, bater sol dentro de casa acaba não sendo o fator fundamental. O importante é que a casa seja arejada e a área no contorno da casa seja bastante ventilada e vem ensolarada.

Revista – Em geral, quais são as soluções arquitetônicas para criar ambientes confortáveis?
Carvalho e Silva – Na verdade a elaboração de um projeto depende de uma série de fatores e detalhes particulares do profissional. Eu aconselho o uso de madeira. Depois é preciso também dar prioridade à vegetação. A arquitetura deve ser integrada ao paisagismo, como, aliás, eu elaboro meus projetos. Para isso eu tenho uma antevisão do contorno da casa. Eu não vejo a arquitetura e o paisagismo independentes um do outro. Além disso, o uso de materiais naturais também é muito eficiente para criar ambientes confortáveis. Por exemplo, pedras, tijolinho aparente e até tijolo rústico no piso, são aspectos que deixam o lugar mais agradável.

Revista – Quais são as obras recentes que apresentam relevância para a arquitetura da cidade?
Carvalho e Silva – Existe muita coisa em execução. Mas nos últimos anos houve um decréscimo e praticamente uma paralisação das grandes construções – com exceção de grandes conjuntos habitacionais. De obra em especial eu posso citar a concessionária Tempo, da Fiat (no Swift) que é do arquiteto paulistano Carlos Bratke. Eu particularmente não sigo essa linha. Minha tendência atualmente são obras humanizadas e não sofisticadas.

Revista – O que seria uma obra humanizada?
Carvalho e Silva – São construções em que a pessoa se sente bem dentro delas. Se sente a vontade. Hoje há uma sofisticação muito grande na arquitetura, em todos os aspectos, em detrimento dessa humanização. Por isso é que ainda existe uma procura de casas tipo colonial, com madeiras, telhas de barro e essas coisas todas que já eram usadas há 50 anos. Mesmo com todos os inconvenientes que esse tipo de construção tem, ele ainda é procurado. Isso porque muitas vezes o arquiteto não consegue dar à obra, em projetos mais atuais, essa sensação de aconchego que o estilo colonial transmite. Eu, graças a Deus, sem apelar para o aspecto colonial tenho feito minhas obras contemporâneas, conseguindo criar ambientes agradáveis e atuais.

Revista – Como o senhor analisa a evolução da cidade, com contrastes sociais tão marcantes?
Carvalho e Silva – Eu nunca imaginei as razões dessas transformações de desenvolvimento na cidade. Primeiro, porque eu não vejo razão nas separações dos bairros em casse média, pobre, rica, residencial ou comercial. Eu não vejo problemas, por exemplo, em ter uma indústria num bairro residencial se essa empresa não trouxer danos para o local.

Revista – E quanto à migração da elite campineira, primeiro para o Cambuí, depois para o bairro Nova Campinas e agora para os condomínios fechados do bairro Chácaras Gramado?
Carvalho e Silva – Esse fenômeno na ocorre só em Campinas. Aparentemente essa cultura com função seletiva de espaço é herdada da Europa, e tem origem feudal. No fundo essa mudança é uma tendência da busca do poder imobiliário. Eles pegam uma região onde tem construções e terrenos mais simples e fazem loteamentos populares. E nos lugares mais especiais, eles valorizam os terrenos e destinam a construções mais sofisticadas.

Revista – É possível apontar algum estilo arquitetônico dominante na cidade?
Carvalho e Silva – O que existia de bom na cidade já foi praticamente arrasado. Uma série de prédios antigos ainda do primeiro centenário da cidade já não existe mais. O dito progresso já os eliminou.

Revista – Sua obra segue algum estilo específico?
Carvalho e Silva – Eu não tenho propriamente um estilo de produção. Minha obra é atual. O resultado da minha obra vem daquilo que o meu interior transfere para as formas. A minha linha é contemporânea e não está presa a nada.

Revista – Como o senhor avalia o problema de moradia em Campinas, que apresenta um número cada vez maior de invasões de sem-teto?
Carvalho e Silva – Eu não sou um expert nesse assunto. Mas no meu modo de ver, esse problema tem relação com aspectos da nossa cultura, onde predomina atualmente o governo político e não o governo técnico. Assim a parte prática do gerenciamento é deixada de escanteio

Revista – E com a imigração crescente…
Carvalho e Silva – No mundo de hoje há uma tendência natural de pessoas migrarem em busca de emprego. Imigrantes chegam aqui com essa intenção, mas acabam não arrumando trabalho, porque na verdade nossas indústrias não conseguem absorver essa mão-de-obra toda. Este fenômeno não acontece só em Campinas, acontece em todas as cidades que começam a apresentar um nível de vida melhor.

por Maria Rita Alonso – Entrevista concedida ao Jornal Correio Popular